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O amor, sempre vai exigir de você que haja um aprimoramento constante para merecê-lo. Nas trocas, nos intercâmbios e vaivéns do dia a dia, haverá uma necessidade constante de revisão. Merecer o ente amado, está para ser um exercício de descobrir qual é a melhor versão de si mesmo, em cada passagem vigente. Aprimorar para cada dia um novo retoque e assim merecê-lo, vale como uma longa caminhada em direção a Deus.
Texto por Pavitra Shannkaar
Ilustração de Kaliani Dassi
De repente ambos se encontram numa passagem especial. Os portais se abrem, os ritos de passagens se aprumam desencadeando eventos surpreendentes que sinalizam as direções das verdadeiras e curativas mudanças. Nasce aqui uma necessidade real de um novo aprendizado. Rigoroso e austero, os reajustes são fundamentais, pois os valores e as vontades são forçados a receber um específico dissecamento, para que haja um salto qualitativo, na forma de se relacionar e prosseguir realizando na vida, no mundo. Quem estiver passando por algo parecido, vai entender prontamente as minhas palavras. No entanto, alguém menos preparado às mudanças resiste a eles, aos ritos de passagens. Resiste aos ensinamentos que a vida armou, quando um tropeço aqui pode ser fatal quanto às escolhas, às regras da nova vida a seguir. Frente às austeridades do rito, alguém passa a vitimizar, e quem estiver passando por isso nesse momento, saberá de quem estou falando. Pesando sobre o relacionamento sob as características de porneia, esse alguém busca resistir aos esforços que são exigidos pela passagem levando tudo a uma situação limite de extrema emergência. O portal continua lá, por mais algum tempo, para que todos possam passar, mas isso não durará para sempre.
Esse precioso portal situa-se no tempo de Kairós, o tempo das oportunidades para as melhorias da vida. No entanto, Kairós é um deus de movimento que traz consigo um farto cacho de madeixas na testa. Conta o mito, ele precisa ser agarrado por essa fronte para que as oportunidades se lancem.
Ainda, irascível e renitente, o tal ente volta a polarizar, relutando e pendulando para o impulso de morte, numa irresponsável postura, de pôr em risco de perder toda a oportunidade de melhorias. Com o pulso de extremo stress, um parceiro mais resoluto replica. – Desse
jeito não será possível prosseguirmos!
Porém, comportamentalmente em resposta, o perdedor se contrapõe com um espectro de insinuação no ar… – Ou você faz o que eu quero, ou eu me jogo em risco para me quebrar. Sou capaz de me mutilar a um limite que você não possa suportar em seu coração, por final, você acabará culpado e arrasado.
Começa aqui uma grandiosa dança da morte em que a culpa como personagem principal segue forçando rolar tudo ladeira abaixo, para nada mais ser. O amor que até então agraciava as iminências da vida, passou a ser uma facada no coração, pronto que lentamente o mágico portal passa a esmaecer e se encerrar, muito perto de cristalizar a passagem para um breve engodo.
Essa brincadeira de destruição dos sonhos, das esperanças, costuma ser algo muito previsível, ter como pano de fundo o medo da aventura, medo da vida. Medo, que na verdade levanta o fantasmagórico de não deixar enxergar, a passagem que sempre esteve e estará lá… A não ser que você estrague, a vida como um todo seguirá zelando por ela. Nessa ou numa versão melhor que talvez você ainda não ouse imaginar.
A função primordial do amor deve ocupar um lugar, como os braços de um amparo responsável. Amar, permitir, abençoar para ser melhor, pode e deve dar tom e ritmo a uma boa dança da vida. O dar e receber, pode e deve ocupar um papel iniciático para a bem-aventurança… No entanto, saber receber é tão importante quanto saber doar, o respeito aqui, soa como uma ferramenta preciosa…
E contudo, não seja maculado o verdadeiro sentido da vida.

Pavitra Shannkaar é autor e escritor em ética, espiritualidade e autoconhecimento, também é terapeuta transpessoal, cantor e compositor da banda Ungambikkula, além de ser presidente da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula. Autor do livro “Raiz das Estrelas”.

Kaliani Dassi é artista, pintora, ilustradora e muralista da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula, além de baixista da banda Ungambikkula. Ilustradora do livro “Raiz das Estrelas” de Pavitra Shannkaar.
Certa feita, ao acordar pela manhã, observou, ainda sentado em seu leito, que ao redor da cama, havia uma pequena formiga. Trabalhosamente, ela se entretinha com um pesado graveto à guisa de colaborar com seu formigueiro, para nutrir e proteger. Ele morava só e apesar de jovial, Harturo, já tinha alcançado uma certa maturidade, pois com o evento da tal formiga, passou a questionar-se sobre o propósito de sua vida, aliás, sobre o propósito da vida em si, visto que até mesmo o pequeno inseto, havia encontrado o seu o papel no mundo… isso o levou a buscar Deus.
Seguindo em sua simplicidade, observando na floresta que tudo é um, aprimorou a seguinte oração: – Querido Deus, Tu és Um, eu sou um!
Imagem retirada da internet.
Assim sendo, ao acordar pela manhã, a primeira coisa que fazia era orar: – Senhor, Tu és Um, eu sou um! De modo que ao passar mais um dia em busca de um propósito para a sua vida, a última coisa que fazia ao deitar era orar: – Senhor, Tu és Um, eu sou um!
Um tempo transcorreu, e Harturo mergulhado em pleno tédio, passou a desesperadamente orar por muitas vezes ao dia, na esperança de que um dia fosse ouvido pelo Pai Criador, dizia com um profundo sentir… – Senhor, Tu és Um, eu sou um! Angustiado pelo bosque, o pobre homem não sabia mais o que fazer. Buscando aprofundar ainda mais o seu vínculo com Deus, Harturo improvisou um rosário, escolheu uma pedra num recanto do rio, e passou a murmurar: – Senhor, Tu és Um, eu sou um! Senhor, Tu és Um, eu sou um! Senhor, Tu és Um, eu sou um! Senhor, Tu és Um, eu sou um! E seguiu, fervorosamente com sua ladainha por meses a fio.
Alguns anos passados, Harturo encontrava-se pela manhã em seu sadhana habitual, quando três sábios que ali se encontravam ouviram o seu murmúrio, resolveram intervir. eve hewson nude
– Senhor, com sua licença, gostaríamos de orientá-lo no seu diálogo com Deus. Humilde e interessado, Harturo então recebeu sua primeira iniciação, de forma que os monges lhe ensinaram. – Agora repita conosco: OM GANGANAPATAYE NAMAHA! OM GANGANAPATAYE NAMAHA! OM GANGANAPATAYE NAMAHA! OM GANGANAPATAYE NAMAHA!
Entusiasmado, desta vez, o matuto seguiu fervorosamente nessa direção, pois havia encontrado um propósito para alcançar, até que um dia algo mágico aconteceu. Estava ele seguindo todas as regras de seu novo sadhana , quando de repente lhe apareceu a frente a nobre presença do deus Ganesha. Sua força e luz eram tão grandiosas que Harturo se viu mobilizado a curvar e o deus prosseguiu. – Desobstruirei os teus caminhos, agora segue para prosperar!!! Essa foi a benção recebida, e assim se fez.
Embora continuasse um homem simples em seu íntimo, Harturo tornou-se um novo homem. Casado, com filhos, próspero em seus negócios, ele viajava regularmente para a Índia, onde ele podia fortalecer a sua retidão, seu sadhana e contudo o seu propósito na vida, visto que tudo parecia dar muito certo.
Por mais que tudo parecesse em seu lugar, Harturo sempre notava algo de inquietação em seu íntimo, contudo clamou por seu deus amigo Ganesha e perguntou. – O que me acontece? Por que ainda estou assim? De forma que Ganesha lhe respondeu: – Isto é o que alcançaste de mim… Queres mais, busque mais.
Assim, seguiu ele buscando mais, e depois mais, até que por sim, um dia encontrou Buda, e depois, Vishnu, e por sua vez, Shiva, sempre recebendo a mesma resposta ao final: – Isto é o que alcançaste de mim. Queres mais busque mais… certo que um dia deu-se de frente com ARDHANARSHWARA, o aspecto do deus Shiva que o é em si, metade fêmea metade macho, metade Shiva, metade Kali e esse então lhe disse: tu me encontras na lua negra!!!
Agora com muito medo, Harturo temia ter caído numa armadilha e ter que lidar com forças demoníacas mas não poderia parar ali, pois conhecia o provérbio: “Se estiver atravessando o inferno, não pare.”
Pesquisando mais a respeito para prosseguir, Harturo encontrou informações de que realmente havia um ritual de Shiva que acontece na lua negra, muniu-se de força e coragem, assim o fez.
Seguindo todos os preceitos do ritual quando de repentemente deparou-se nem mais e nem menos com o deus Abraxas. Ainda assustado com as formas bizarras desse deus, que é infinitamente bom e infinitamente mau, Harturo tomou novo fôlego e perguntou: O que acontece? Por que ainda estou assim? Depois de seguir com retidão todos os preceitos de uma boa conduta, depois de prestar adoração sincera a todos esses aspectos de Deus que me apareceram, por que me encontro aqui, lidando com forças titânicas dos deuses sinistros?
Como um estrondo hediondo, na voz grandiosa do Arcanjo Metatron, irrompeu-se como um arauto do Deus Verdadeiro: – ISTO É O QUE ALCANÇASTE DE MIM!!!
Em prantos, assim Harturo perguntou: – Mas o que faço? Como faço? Como encontro o Divino, finalmente, para ter paz? Ao que DEUS respondeu: – BUSCA-ME ENTRE AS TUAS MAZELAS, QUANDO ELAS DESEMBARAÇAREM, FINALMENTE, ESTAREI LÁ, SENDO VOCÊ!!!

Pavitra Shannkaar é autor e escritor em ética, espiritualidade e autoconhecimento, também é terapeuta transpessoal, cantor e compositor da banda Ungambikkula, além de ser presidente da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula. Autor do livro “Raiz das Estrelas”.
Inesperadamente, aprumou-se em mim uma extensa linha de raciocínio. Este, o amor, é o motivo dessa paralização, o pânico de sua presa. O estado de amor expandido, a confusão entre o amor e a morte. Porém, aquele amor incomensurável há de alimentar o terrível vilão, a serpente. Amar aquilo que o alimenta é a nossa porneia, o amor de uma criança bebê por sua mãe, em nosso cérebro réptil; e dá origem à palavra pornografia.

Ilustração de Kaliani Dassi

Ainda mais tarde, ao admirar na natureza o comportamento de uma águia, pude observar o transe expandido. Com o campo energético ampliado grandiosamente diante de seu alimento ao abrir de forma dramática as suas asas, a águia emitiu seu terrível guinchado e atacou de forma direta e precisa nas vísceras (onde se encontra a maior fonte de energia, a usina energética daquele corpo) e deu-se então o delicioso banquete.
Nosso drama da criação é justamente o perene refluxo de violência, dor, sobrevivência, nutrição; amar e perder. Estar vivo é necessariamente alimentar-se de algo vivo e isso nos remete a um ciclo de violência que ainda não conseguimos parar. Infelizmente, nossa sobrevivência ainda depende de oblações. Amar é nutrir, amar é nutrir-se, só assim a vida pode perdurar. É estranhamente constrangedor observar o sistema autofágico em que estamos metidos. Permanecer vivo e nutrido faz parte de uma cadeia de violência e mortes. Estranhamente intrincada essa cadeia se torna quando analisamos a partir dos valores do ego e não do instinto; muito tempo já se passou e nós ainda não nos acostumamos com isso.
Aprofundando atenção sobre o fenômeno, podemos notar que a força da vitalidade repassa e muda de corpos através da nutrição. Muitos seres foram mortos e/ou sacrificados, para que você esteja nesse momento lendo essas mensagens, essas palavras. Sua vida, seu bem-estar, se deve ao sacrifício de muitas outras. Toda a vida na Terra prossegue submissa a essa lei. Por esse motivo, a reverência aos mortos é necessária ser mantida. Entender que a morte é a contraparte da vida, de sua subsistência. Essas duas energias, vida/morte, compõem uma mesma teia. A reverência resguardada serve para preservar a intenção de sua existência. Nós já sabemos que o nosso universo é moldado por intenções. Ter como intenção de uma vida o consumo e o descaso, não poderá preencher de boa forma o próximo universo a ser coagulado. Essa fronteira entre bem e mal precisa ser revista, a relatividade precisa ser observada mais de perto. A solução para os nossos problemas, infelizmente ainda adormece com a inconsciência. Conscientizar, é mudar percepção, coisas inconscientes, ou semi-inconscientes, ainda são problemas para nós.
Do ponto de vista do ego, um ato de egoísmo; do ponto de vista do instinto, algo muito natural. Talvez tenhamos aqui, um argumento favorável às observações de Hoyle. Mas, essa contradição da vida interfere mais do que você pode imaginar em sua psique, quanto à sua segurança e estabilidade de existência e presença. Pois do ponto de vista do ego, nessa questão, prosseguiremos vilões.
O pessimismo de Schopenhauer se deve ao fato de que o universo em que vivemos não é real. Sabemos que as percepções de visão, audição, olfato, paladar e táteis não correspondem à real estrutura do universo, pois o que vemos e nos serve de referência para as trocas de nossas necessidades é pertinente aos universos internos dos indivíduos. E só aqui, eu arrisco dizer que ao lidar diretamente com seus próprios sentidos, para evoluir, pode ser mais objetivo reconhecer o valor da metáfora. Temos ainda assim, uma base amorosa que nos sustenta, que nos mantém. Por isso, interpretar e ressignificar podem ser a salvação para o dissecamento da violência.
– trecho do livro “Raiz das Estrelas”

Pavitra Shannkaar é autor e escritor em ética, espiritualidade e autoconhecimento, também é terapeuta transpessoal, cantor e compositor da banda Ungambikkula, além de ser presidente da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula. Autor do livro “Raiz das Estrelas”.

Kaliani Dassi é artista, pintora, ilustradora e muralista da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula, além de baixista da banda Ungambikkula. Ilustradora do livro “Raiz das Estrelas” de Pavitra Shannkaar.