Estava eu um dia, diante de um autoinvestigador, ajudando-o a conquistar uma específica percepção sobre o ágape, o amor elevado, quando de repente acessei a força de um poderoso arquétipo divino, o Oxumaré, a serpente, o Arco-íris, aquele que reorganiza as cores. Uma imagem contundente feriu-me a memória ao visionar uma cobra diante de um rato. Este, por sua vez, tentava desesperadamente debater-se e libertar-se daquele transe maldito, ante à possibilidade de virar um alimento, contudo, paralisado em seus reflexos.
Inesperadamente, aprumou-se em mim uma extensa linha de raciocínio. Este, o amor, é o motivo dessa paralização, o pânico de sua presa. O estado de amor expandido, a confusão entre o amor e a morte. Porém, aquele amor incomensurável há de alimentar o terrível vilão, a serpente. Amar aquilo que o alimenta é a nossa porneia, o amor de uma criança bebê por sua mãe, em nosso cérebro réptil; e dá origem à palavra pornografia.

“Este, o amor, é o motivo dessa paralização, o pânico de sua presa. O estado de amor expandido, a confusão entre o amor e a morte.”
Pavitra Shannkaar
Ilustração de Kaliani Dassi

Ainda mais tarde, ao admirar na natureza o comportamento de uma águia, pude observar o transe expandido. Com o campo energético ampliado grandiosamente diante de seu alimento ao abrir de forma dramática as suas asas, a águia emitiu seu terrível guinchado e atacou de forma direta e precisa nas vísceras (onde se encontra a maior fonte de energia, a usina energética daquele corpo) e deu-se então o delicioso banquete.
Nosso drama da criação é justamente o perene refluxo de violência, dor, sobrevivência, nutrição; amar e perder. Estar vivo é necessariamente alimentar-se de algo vivo e isso nos remete a um ciclo de violência que ainda não conseguimos parar. Infelizmente, nossa sobrevivência ainda depende de oblações. Amar é nutrir, amar é nutrir-se, só assim a vida pode perdurar. É estranhamente constrangedor observar o sistema autofágico em que estamos metidos. Permanecer vivo e nutrido faz parte de uma cadeia de violência e mortes. Estranhamente intrincada essa cadeia se torna quando analisamos a partir dos valores do ego e não do instinto; muito tempo já se passou e nós ainda não nos acostumamos com isso.
Aprofundando atenção sobre o fenômeno, podemos notar que a força da vitalidade repassa e muda de corpos através da nutrição. Muitos seres foram mortos e/ou sacrificados, para que você esteja nesse momento lendo essas mensagens, essas palavras. Sua vida, seu bem-estar, se deve ao sacrifício de muitas outras. Toda a vida na Terra prossegue submissa a essa lei. Por esse motivo, a reverência aos mortos é necessária ser mantida. Entender que a morte é a contraparte da vida, de sua subsistência. Essas duas energias, vida/morte, compõem uma mesma teia. A reverência resguardada serve para preservar a intenção de sua existência. Nós já sabemos que o nosso universo é moldado por intenções. Ter como intenção de uma vida o consumo e o descaso, não poderá preencher de boa forma o próximo universo a ser coagulado. Essa fronteira entre bem e mal precisa ser revista, a relatividade precisa ser observada mais de perto. A solução para os nossos problemas, infelizmente ainda adormece com a inconsciência. Conscientizar, é mudar percepção, coisas inconscientes, ou semi-inconscientes, ainda são problemas para nós.
“Ter como intenção de uma vida o consumo e o descaso, não poderá preencher de boa forma o próximo universo a ser coagulado.”
Pavitra Shannkaar
Do ponto de vista do ego, um ato de egoísmo; do ponto de vista do instinto, algo muito natural. Talvez tenhamos aqui, um argumento favorável às observações de Hoyle. Mas, essa contradição da vida interfere mais do que você pode imaginar em sua psique, quanto à sua segurança e estabilidade de existência e presença. Pois do ponto de vista do ego, nessa questão, prosseguiremos vilões.
O pessimismo de Schopenhauer se deve ao fato de que o universo em que vivemos não é real. Sabemos que as percepções de visão, audição, olfato, paladar e táteis não correspondem à real estrutura do universo, pois o que vemos e nos serve de referência para as trocas de nossas necessidades é pertinente aos universos internos dos indivíduos. E só aqui, eu arrisco dizer que ao lidar diretamente com seus próprios sentidos, para evoluir, pode ser mais objetivo reconhecer o valor da metáfora. Temos ainda assim, uma base amorosa que nos sustenta, que nos mantém. Por isso, interpretar e ressignificar podem ser a salvação para o dissecamento da violência.
– trecho do livro “Raiz das Estrelas”
Tags

Sobre o Autor
Pavitra Shannkaar é autor e escritor em ética, espiritualidade e autoconhecimento, também é terapeuta transpessoal, cantor e compositor da banda Ungambikkula, além de ser presidente da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula. Autor do livro “Raiz das Estrelas”.

Sobre a ilustradora
Kaliani Dassi é artista, pintora, ilustradora e muralista da Cooperativa Cultural e Artística Ungambikkula, além de baixista da banda Ungambikkula. Ilustradora do livro “Raiz das Estrelas” de Pavitra Shannkaar.
Mais recentes
Continue lendo…
A Dança do Mundo
A Dança do Mundo


Pingback: Em Ver-lhe Ser... | Pavitra Shannkaar
Pingback: Coisas do Deus Verdadeiro... | Pavitra Shannkaar
Pingback: Tirésias | Pavitra Shannkaar
Pingback: Das parábolas que lambiam o sol | Pavitra Shannkaar
Pingback: Das parábolas que lambiam o sol... verso 2 | Pavitra Shannkaar